Monday, October 31, 2005

Clube da Esquina

Este disco colocou Minas Gerais no mapa da música mundial. Mas Clube da Esquina além de um bom disco foi um movimento que reuniu alguns dos músicos mais importantes daquela terra, ficando atrás em importância apenas da Tropicália. Música regional, MPB, rock, rock progressivo, Jazz, World Music; escolha qualquer um destes rótulos e ele caberá perfeitamente neste disco, mas para mim o melhor rótulo seria: música de boa qualidade.
Tudo começou em 1963 quando Milton Nascimento chega a Belo Horizonte e vai morar em uma pensão no Edifício Levy, na rua Amazonas, centro de BH. Neste mesmo prédio moravam os irmãos Borges (12 ao todos). Milton conhece o mais velho deles, Marilton e juntos formam o grupo Evolussamba, e logo estaria fazendo amizade também com Márcio e com o pequeno Lô que, então, tinha 10 anos de idade. Os encontros entre Milton e os irmãos eram sempre no quarto dos Borges e com tempo Márcio tornou-se o letrista das primeiras composições de Milton, Novena, Gira Girou e Crença, todas feitas em 1964. Enquanto isso, Lô estudava harmonia com o guitarrista Toninho Horta e devorava discos dos Beatles com outro menino, Beto Guedes. Aliás, Beatles foram uma das maiores influências do Clube.
Milton Nascimento
Entre 66 e 69 Milton começa a fazer grande sucesso no Brasil, obtendo boas colocações com suas músicas nos festivais, e participando várias vezes do programa de TV, comandado por Elis Regina O Fino da Bossa. Era o começo do estrelato de Milton, que logo foi apresentado aos americanos com o disco Courage (1968), gravado por lá com arranjos de Eumir Deodato. Já na terra de Tiradentes, a turma de músicos não parava de crescer, com a chegada de Flávio Venturini (fundador do Terço, uma das primeiras bandas de rock progressivo do Brasil), Vermelho (depois, fundaria o 14 Bis) e Tavinho Moura. Esta turma começou a se apresentar em shows chamados Fio da Navalha com Lô Borges, Beto Guedes e Toninho Horta.
À esquerda Beto Guedes, à direita Flávio Venturini
Com o retorno de Milton o grupo passou a se reunir em um bar que ficava na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis (daí o nome Clube da Esquina). Nascia então o Clube da Esquina, com uma turma unida pelo interesse por música, política e muita cachaça. Os grandes idealizadores do disco foram Milton Nascimento e Lô Borges que em 1972 partem para o Rio de Janeiro para começar as gravações. Por isso que a capa do disco trás um menino negro e outro branco, mas não se enganem, eles não são Milton e Lô! Os outros integrantes iam para o rio e ficavam por pouco tempo, participando de algumas faixas apenas.
Lô Boeges
Como o disco é muito grande, 21 músicas, decidi dividi-lo em três categorias de músicas: Regionais, Saudosistas e Surrealistas. As músicas regionais são aquelas que têm influencia da música e dos costumes mineiros. As saudosistas reúne todas as músicas bucólicas que falam das paisagens mineiras e que levam o ouvinte a uma viagem ao interior de Minas. Já as surrealistas, são aquelas que têm uma grande influência dos Beatles, têm uma letra diferente e música fragmentada e com um toque de rock progressivo.
Regionais: Saídas e Bandeiras nº 1 e nº 2, Cravo e Canela, San Vicente, e Clube da Esquina nº 2. Merecem destaque as duas Saídas e Bandeiras, que contam a história da corrida do ouro no século 17 e a belíssima instrumental Clube da Esquina nº2.
Saudosistas: Tudo que podia ser, Cais, O trem azul, Nuvem cigana, Paisagem na janela, Me deixa em paz, Nada será como antes e Lilia. Nuvem cigana, O trem azul e Nada será como antes têm as melhores letras mas Nada será se destaca : “Eu já estou com um pé nessa estrada/ qualquer dia a gente se vê/ sei que nada será como antes, amanhã”).
Surrealistas: Dos Cruces, Um girassol da cor de seu cabelo, Estrelas, Os povos, Um gosto de Sol, Pelo amor de Deus, Trem de doido e O que vai nascer.Duas merecem grande destaque:Pelo amor de Deus e Trem de doido. A primeira, pela música surpreendente de Milton e a segunda pela letra surreal : “Não precisa ir muito além desta estrada/ os ratos não sabem morrer na calçada/ é hora de você achar o trem/ e não sentir pavor dos ratos soltos na casa”.
Para saber mais sobre o Clube da Esquina, leia o livro: Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina de Márcio Borges que conta um pouco dos bastidores deste movimento.

Friday, October 14, 2005

Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band

O disco mais inovador e complexo de todos os tempos. Até hoje Sgt. Pepper é atual e será ainda contemporâneo por um longo tempo. Fruto de uma rivalidade entre Paul MacCartney e Brian Wilson (Beach Boys) que começou com o lançamento de Rubber Soul dos Beatles e que teve como resposta o belíssimo Pet Sounds dos Beach Boys. Sgt Pepper acabou com a disputa (Brian Wilson teve um colapso nervoso pois não conseguia compor nada melhor que Sgt Pepper!). Para se ter uma idéia de sua complexidade, foram necessárias 700 horas somente para gravações (com a masterização o tempo chega a 129 dias!), enquanto que Please Please me, primeiro disco dos Beatles, foi gravado em 585 minutos!
Durante uma viagem de avião dos EUA para a Inglaterra, Paul teve a idéia de gravar um álbum sobre uma banda fictícia com o nome mais estranho possível (o que era comum na época), assim nascia a Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band que teria em seus vocais o personagem Billy Shears. Na época os Beatles tinham decidido que não iriam mais fazer shows, então o novo álbum só teria músicas que não pudessem ser tocadas ao vivo.

Antes de falar das músicas vou falar um pouco sobre a capa do disco. A idéia da capa era simples: a banda Sgt Pepper´s faria um show em um jardim para um público seleto e após o show todos posariam para uma foto. Então cada membro dos Beatles faria uma lista das pessoas das quais gostariam que estivesse no ta show fictício. Paul escolheu atores de cinema como Fred Astaire e Marlon Brando; George Harrison escolheu 12 Gurus indianos; Ringo Star não escolheu ninguém, apenas disse “o que os outros escolherem esta bom” ; John Lennon escolheu vários comediantes, Jesus e Hitler, estes dois últimos estariam lado-a-lado, mas acabaram não entrando na capa pois alguns meses antes Lennon tinha dito a famosa frase “ Os Beatles são mais famosos que Jesus Cristo” (que foi interpretada fora de contexto!) e para evitar mais confusões tiraram os dois. Várias outras pessoas famosas aparecem na capa, como: Bob Dylan, Aldous Huxley, Marilyn Monroe, Karl Marx, H. G. Wells, Oscar Wilde, Albert Einstein e uma versão dos Beatles no começo de carreira. Outro fato inovador é que o encarte trazia todas as letras das músicas do disco (primeira vez que isto aconteceu!).
Vamos agora às músicas. A primeira e a penúltima são duas partes da música Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band e fazem parte do conceito inicial de Paul. A primeira retrata o começo de um show, onde a banda Sgt Pepper se apresenta ao público juntamente com o vocalista Billy Shears e dizem que a noite promete ser maravilhosa (é como se a banda fictícia preparasse o ouvinte para as próximas músicas do disco e esperasse que o ouvinte gostasse do que tinha por vir). Já Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band (Reprise) é a despedida da banda que esta terminando o seu show (ou o disco) e que vai tocar apenas mais uma música e que espera rever os fãs em breve em um próximo show (ou na próxima vez que escutarem o disco).

With a Little Help from my Friends é cantada por Ringo Star. O título da música (com uma pequena ajuda dos meus amigos) tem um toque de humor, pois como Ringo não sabia compor e gravava rapidamente as suas partes na bateria, ficava muito tempo sem fazer absolutamente nada. Então com uma pequena ajuda de seus amigos (Paul e John) poderia passar o tempo cantando esta música! O interessante é que a música só ficou famosa na voz de Joe Cocker que fez uma versão belíssima, que aposto que todos já escutam alguma vez, mas nunca prestaram a atenção devida. Não conseguem se lembrar? Eu ajudo! A versão de Joe Cocker é o tema de abertura da série Anos Incríveis, aquela do Kevin Arnold!

Agora eu quero desfazer um mal entendido. Lucy in the Sky with Diamonds não é sobre LSD. Ela é realmente sobre um desenho que Julian, Filho de John, fez sobre uma amiguinha de escola chamada Lucy. Inclusive a letra retrata bem o desenho (como vocês podem conferira a seguir). Mas é claro que John Lennon sabia o que significava as iniciais do título da música, mas tudo não passou de uma simples coincidência.

She´s Leving Home é uma música muito bonita que conta a história de uma garota que vive confortavelmente com seus pais ricos e que foge de casa em busca de um sentido na vida, pois apesar de todo conforto ela é solitária, e diversão (coisas que o dinheiro não podem comprar). Being for the Benefit of Mr. Kite foi composta por Lennon que se inspirou num poster do circo Pablo´s Fanque (veja o pôster a seguir) e é basicamente uma propaganda das atrações do circo.

When I´m Sixty Four foi composta por Paul e é uma visão, inspirada em seu próprio pai que então tinha 64 anos, de como seria a sua vida quando chegasse a esta idade. Good Morning, Good Mornning foi inspirada em um comercial de cereais e chama a atenção por toda a sua complexidade musical (não me perguntem como eles conseguiram gravar os sons de um galo, alguns gatos, cachorros, cavalos e até um elefante!).Claro que o melhor ficaria para o final com a magistral Day in the life. A letra foi inspirada em duas notícias lidas por Lennon no jornal Dailly Mirror. A primeira sobre um rapaz que morreu em um acidente de carro e a segunda dizendo que o distrito industrial de Blackburn em Lancashire tinha 4000 buracos.
Escutar Sgt Pepper é sempre uma experiência marcante, pois é escutar o melhor disco da melhor banda e perceber que dificilmente ele será superado. Mas apesar de todo o reconhecimento dos fãs e da crítica, o único membro da banda que gosta do disco é Paul MacCartney. Lennon disse que “parando para pensar, ele nunca foi tão bom assim” e George Harrison chegou a afirmar: “o disco é ruim e não gostei de tê-lo feito pois foi apenas um trabalho cansativo e burocrático!” O mundo seria muito melhor se houvessem mais trabalhos burocráticos como este!!!


Para saberem mais sobre Sgt Pepper assistam ao desenho Yellow Submarine que contém algumas músicas do disco e as explica muito bem!

Wednesday, October 05, 2005

O Princípe das Trevas

O que fez de transformer, primeiro disco solo de Lou Reed, popular? A boa música? A curiosidade mórbida das pessoas sobre as letras sombrias? A excelente produção de David Bowie (na época no auge da fama com seu personagem Ziggy Stardust)? A estranh ligação entre Lou Reed e Andy Warhol (criador da Pop-Art e da frase: todos terão seus 15 minutos de fama)? É difícil dizer, mas é provável que seja um pouco de cada coisa.
Lou Reed é uma pessoa diferente (para não dizer bizarra). Já na adolescência foi internado, por seu pai, em uma instituição para doentes mentais, por apresentar tendências homossexuais e sado-masoquistas. Sempre freqüentou o grande bairro boêmio e “moderninho” de Nova York, o West Village (ele mora no bairro até hoje). Lá ele acabou conhecendo Andy Warhol e entrando para sua trupe, participou de alguns filmes de arte e depois formou a banda Velvet Underground and Nico (patrocinada e controlada por Andy). A banda nunca fez sucesso mas saiu em algumas manchetes de jornal devido a capa do disco (o da banana, onde não aparecia o nome da banda mas só o de Andy Warhol!) e por causa das peripécias de Nico, vocalista da banda (um dos feitos de Nico é retratado no filme The Doors de Oliver Stone, onde ela é pega em um momento bem intimo com Jim Morrison em um elevador).


Com o fim do Velvet, Lou decide iniciar uma carreira solo e convida ninguém menos que David Bowie para produzir seu primeiro disco (também era a primeira vez que Bowie produzia). O disco é repleto de crônicas sobre o West Village com seus bares e personagens: de pessoas buscando a fama até traficantes e travestis. É o retrato de um canto de Nova York que não é visto em filmes e muito menos cantado por Frank Sinatra.
O disco começa com o grande sucesso Vicious. A música se inicia com o famoso verso (diz a lenda que foi Andy quem o disse a Lou) : “Vicious, you hit me with a flower/ you doin´g every hour” e poderia ser traduzido da seguinte maneira: “ Depravado, você me bate com uma flor e faz isso toda hora” eu acho que é desnecessário comentar o seu significado. A segunda música é Andy´s Chest que fala um pouco dos métodos criativos de Andy (uma maneira sutil de puxar o saco do chefe ou uma sincera admiração?).
Em seguida temo um dos grandes clássicos do Rock: Perfect Day. Quem tiver em mãos o CD comemorativo dos 30 anos de lançamento de Transformer poderá escutar a primeira versão da música, e irá perceber como o trabalho de Bowie foi importante, deixando a música MUITO melhor.

Walk on the Wild Side e seu baixo inesquecível! Sabe qual é o segredo? Eu conto. São dois baixos, um elétrico e outro acústico. Na época Lou não tinha banda, então ele precisava contratar alguns músicos para ajuda-lo a gravar o disco. Estes músicos além de ganharem por hora ganhavam por instrumento tocado. O esperto baixista sugeriu que se gravasse a música com um baixo elétrico e outro acústico ela ficaria muito melhor (se ambos fossem do mesmo tipo ele não ganharia em dobro) e o pior é que todos gostaram do resultado final e o espertinho faturou em dobro! Outro fato curioso dessa música é que em um de seus versos aparece a expressão Givin´ Head (vão ter que descobrir sozinhos pois eu não vou contar o que é!). E a música, com a expressão, foi tocada na puritana rádio BBC, passando despercebida pelo pessoal da censura, causando grande alvoroço naqueles que sabiam seu significado!

Merecem ainda destaque as seguintes músicas do disco:
Make Up: que descreve como um travesti se arruma (maquiagem, roupas e perucas) para mais uma noite de trabalho;
New York Telephone Conversation: a melhor maneira de descrever a letra desta música é pela série Sex and the City. Sabe aquele momento em que as personagens estão tomando café da manhã e ficam conversando sobre os relacionamentos (quem ficou com quem, quem fez o que com quem)? Então, a música é bem parecida, só que a conversa é via telefone;
Goodnight Ladies: se trata de Lou Reed se despedindo de seus amigos depois de uma noite de bebedeira. Será coincidência ela ser a ultima do disco?
Para saber mais sobre Lou Reed eu acho melhor conhecer um pouco mais sobre Andy Warhol, então assistam ao filme: Um tiro para Andy Warhol, que conta um pouco de sua história e de como ele acabou morrendo!